Suplementos e vitaminas IV: o que a ciência diz
Você provavelmente toma algum suplemento. Ou conhece alguém que toma vários. Magnésio, colágeno, vitamina D, vitamina C intravenosa. Às vezes por indicação médica. Muitas vezes porque “não faz mal”. Esse último ponto merece atenção.
“Natural” não é o mesmo que seguro
Revisões com centenas de milhares de participantes mostram que multivitamínicos não reduzem risco de doenças cardíacas, câncer ou morte em pessoas sem deficiência comprovada.12 Em situações específicas, doses elevadas de determinados suplementos também mostraram risco aumentado:
Betacaroteno e vitamina A em fumantes, associado a maior incidência de câncer de pulmão.3
Vitamina E em altas doses, associada a aumento na incidência de câncer de próstata.4
Vitamina D em excesso, podendo causar hipercalcemia e, em casos prolongados, complicações renais.5
Vitaminas são essenciais ao funcionamento do organismo. Isso é indiscutível. A questão é outra: suplementar além das necessidades traz benefício adicional? A indicação precisa vir de uma avaliação real, não de um protocolo genérico ou de uma recomendação de influenciador.
Vitaminas intravenosas
As clínicas de vitaminas IV prometem energia, imunidade e recuperação. A evidência disponível não sustenta nenhuma dessas promessas em pessoas saudáveis.6 Os riscos existem: arritmias, sobrecarga renal, falência hepática, e infecções associadas ao acesso venoso fora do ambiente hospitalar.7
O custo maior
Além do financeiro, há um risco menos visível: suplementos desnecessários frequentemente atrasam a busca por cuidado e tratamento adequados.
Nem toda intervenção necessária é complexa. E nem toda intervenção disponível é necessária.
Cuidado de qualidade é aquele que respeita a evidência científica, o contexto individual e a proporcionalidade das condutas.
Dra. Andrea Yamasato é médica especialista em Clínica Médica | Medicina Interna pelo Hospital das Clínicas da FMUSP, pós-graduanda em Medicina do Estilo de Vida no Hospital Israelita Albert Einstein. Atende adultos em São Paulo com foco em medicina preventiva, diagnóstico integrado e acompanhamento longitudinal.
- Vitamin and mineral supplements in the primary prevention of cardiovascular disease and cancer: an updated systematic evidence review for the U.S. Preventive Services Task Force. Ann Intern Med. 2013;159(12):824–834. Revisão sistemática: multivitamínicos não previnem doenças cardiovasculares ou câncer em adultos sem deficiência.
- Vitamin, mineral, and multivitamin supplementation to prevent cardiovascular disease and cancer. JAMA. 2022;327(23):2326–2333. Recomendação atualizada: evidência insuficiente pra benefício em adultos saudáveis.
- Drugs for preventing lung cancer in healthy people. Cochrane Database Syst Rev. 2020;3(3):CD002141. Cochrane: betacaroteno aumenta incidência de câncer de pulmão em fumantes.
- Vitamin E and the risk of prostate cancer: the Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial (SELECT). JAMA. 2011;306(14):1549–1556. SELECT trial: vitamina E em altas doses aumenta risco de câncer de próstata.
- Development of vitamin D toxicity from overcorrection of vitamin D deficiency: a review of case reports. Nutrients. 2018;10(8):953. Casos de hipercalcemia e complicações renais por excesso de vitamina D.
- Intravenous multivitamin therapy use in hospital or outpatient settings: a review of clinical effectiveness and guidelines. Ottawa: CADTH. 2020. Revisão: vitaminas IV não têm evidência de benefício em pessoas saudáveis.
- A nearly fatal case of Pseudomonas bacteremia secondary to a naturopathic intravenous vitamin infusion. J Investig Med High Impact Case Rep. 2016. Caso de bacteremia grave por infusão IV de vitaminas em ambiente não hospitalar.